Será que a perfumaria vai continuar relevante?

Há 3 meses atrás, até isso me questionei, quando globalmente nos despimos de nossas certezas.

Agora, com maior clareza, volto a reafirmar que sim, há futuro para a perfumaria. Claro, com revisitações e novas soluções, como por exemplo, o Digital Scents, que aparece mais adiante nesse texto.

Para falar dessas tecnologias que serão colocadas em prática e sentir esse cheiro de futuro, conversei em uma transmissão ao vivo com Olivia Jezler. Brasileira, tailandesa e suíça, sua diversidade de origem também reflete em uma profissional múltipla e conecta a tudo o que há de mais moderno sobre o sentido do olfato.

Fundadora do “Future of Smell”, consultoria que une pesquisas e tecnologias do olfato para desenvolver produtos e experiências relevantes, Olivia já trabalhou em casas de fragrâncias como IFF, Robertet, Symrise e a multinacional brasileira, Natura & Co. No meio acadêmico, com a SCHI LAB da University of Sussex e como educadora na Parsons School of Design.

Destaco aqui os principais insights que ficaram dessa conversa ao vivo, conectando São Paulo a Nova Iorque.

Já que estamos mais em casa…

As marcas devem estudar a possibilidade de impactar, presencialmente, o consumidor em sua casa. Claro, de forma estratégica e refinada, em formas de amostras de digital scents e kits atrativos. Alguns movimentos já acontecem no setor de beleza, no geral. É o caso da Glow Recipe, que saiu na frente e lançou o primeiro programa de sampling digital, aumentando a ativação e o engajamento no e-commerce.

Por falar em e-commerce…

Será necessário o desenvolvimento de estratégias para um melhor processo de curadoria e compras de fragrâncias no online. Um setor que, segundo Olivia, ainda conta com ferramentas antigas, e que pede por melhores e mais intuitivas formas para que o consumidor faça as suas escolhas. Seria como redesenha uma experiência de usuários da perfumaria, uma UX voltada para o sentido do olfato.

Experiências redesenhadas, também no varejo.

Os testers de cosméticos, no formato como os conhecemos, estão com os dias contados. Na perfumaria, a problemática não se dá pelas fitas olfativas, que já eram descartáveis, mas pelos frascos não poderão mais ficar expostos para que várias pessoas os manipulem.

Aqui, as “sniffy technologies” podem contribuir com dispositivos que borrifam as fragrâncias diretamente na pele do cliente, sem a necessidade de toque. E ainda, incorporando tecnologia que permite estudar as reações do consumidor através de análise das expressões faciais, onde será possível interpretar os sentimentos despertados, o que seria valioso para um levantamento de dados para desenvolver produtos e avaliar percepções.

Percepções, sentimentos, sentidos…

O poderoso sentido do olfato, protagonista.

Olivia recorda que desde a Grécia Antiga, a visão e audição sempre foram os sentidos exaltados como mais importantes, uma ideia ainda mais reforçada e difundida com a racionalização do Iluminismo. São os sentidos mais relacionados com a escuta e a leitura do aprender, com a materialidade, com a aferição e comprovação. Já o olfato, assim como o paladar e o toque, supostamente teriam uma função mais primitiva, mais animal.

Agora, estamos diante de uma nova constelação dos sentidos.

Nossos sentidos estão confusos. Nos recolhemos em casa ou, no máximo, frequentamos ambientes rotineiros, sem muitos estímulos visuais. Com o distanciamento social, nosso tato também está restrito, e também muito vigiado – não tocamos sem necessidade ou sem racionalizar.

Nesse contexto, o paladar e o olfato, como sentidos mais sutis, se revelam como veículos para a suavidade, alegria, acalento. O cheiro, sem muito esforço, nos transporta para memórias e lugares.

Como se não bastasse, a própria perda desse sentido já nos aponta um diagnóstico médico por si só, já que é um sintoma que pode ser apresentado ao contrair o covid-19.

Por fim, provoco: e como fica o marketing olfativo? Com o uso de máscaras e menor circulação no varejo e hotéis, é de se imaginar que essa categoria, tão pautada na criação de fragrâncias personalizadas para lojas e amenities, precise se reinventar.

Olivia novamente aponta possíveis caminhos, um respiro de otimismo: com a restrição do tato durante a compra, existe mais uma oportunidade para o olfato protagonizar nas lojas. Já no e-commerce, a fragrância pode se fazer presente nas caixas entregues com os produtos, e aqui as possibilidades são ainda maiores!

Desenvolver uma fragrância que perdure por dias na caixa ou no produto vendido, ou em uma pequena tecnologia que acompanhe a experiência de compra e possa ser reutilizada, por exemplo, é garantir que o cliente seja surpreendido e sensibilizado, encantado!

Encantadora foi também essa conversa e a possibilidade de me conectar a uma perspectiva animadora. Encerro a transmissão com a cabeça fervilhando de ideias e com o coração aquecido diante das possibilidades de enxergar, como gosto de dizer, o “frasco” meio cheio.

 

Cheirosamente,

Alessandra Tucci.

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