Sempre faço a analogia de que o aprendizado sobre perfumes pode ser tão desafiador quanto aprender um novo idioma, já que também se exige memorizar elementos tão intangíveis.

Por isso, não poderiam deixar de existir metodologias para guiar esse processo de aprendizado e memorização. A que trago aqui hoje é amplamente praticada e reconhecida por sua eficácia em aumentar a memória e o vocabulário olfativo. Não à toa, é muito utilizada desde o início aqui na Paralela: o Método Jean Carles.

Perfumista e mentor de outros profissionais como Monique Schlienger (fundadora da Ciquième Sens) e de Jacques Polge (perfumista exclusivo da Chanel), fundou a Escola de Perfumaria da Roure, a atual Givaudan, e criou seu próprio método, que tem o objetivo de fazer com que, antes mesmo de compor uma fragrância, possa ser previsto como será seu cheiro e o que fazer para alterá-lo, sem efetivamente cheirá-la!

Para isso, a chave dessa habilidade é: estar muito familiarizado com as matérias primas – e também com sua evaporação. Mas como treinar essa familiarização?

Foto de Bois de Jasmin @ Orgão de Jean Carles Perfumery Museum of Grasse

Como funciona o Método Jean Carles

Diferentemente dos métodos de tentativa e erro, esse tem abordagem em duas etapas: Diferenciação e Similaridade.

Ilustrando um pouco do processo: As amostras são dispostas em uma tabela e agrupadas por famílias. 

Primeiro, se cheira ingredientes naturais considerando o contraste. Como a bergamota, rosa e sândalo, por exemplo. Tudo aleatoriamente, sem estabelecer qualquer conexão entre eles. Depois, fazer o mesmo processo com ingredientes sintéticos. E dessa forma, categorizar em uma coluna o que é floral, cítrico, amadeirado e assim sucessivamente.

Depois, o estudo se dá pela similaridade entre os ingredientes de uma mesma família olfativa, um passo que exige atenção aos detalhes quando se cheira ingredientes parecidos, como por exemplo,  três flores brancas:   jasmim, tuberosa e flor de laranjeira,  cada uma, porém,  com nuances olfativas próprias.

Batalha Naval Olfativa

Para ilustrar esse treino que se assemelha ao clássico jogo da batalha naval, podemos usar dois exemplos.

A rosa, que estará na coluna dos florais. E então, a Rosa Damascena por exemplo,  se desdobrará em seus constituintes:  Óxido de Rosa, Álcool Fenil Etílico. 

Na coluna dos cítricos, encontraremos o limão siciliano. E este se desdobrará em seus componentes: Limoneno e Citral.

A princípio, a alquimia soa complexa, mas a metodologia é justamente eficaz para naturalizar esses termos químicos mais técnicos e, por meio dessa visualização lógica, estabelecer correlações que suavizam todo o processo.

Representação ilustrativa criada por Paralela Escola Olfativa

Menos É Mais

O exercício se baseia na categorização e organização visual dos ingredientes por meio dessa análise em etapas. A grande sacada é o passo a passo que cria um critério claro, para uma análise complexa. Importante dizer também que o “menos é mais” é uma máxima que se aplica muito nesse exercício, já que esse glossário começa com uma quantidade mais reduzida e vai se desdobrando e ampliando.

Quanto mais profunda a compreensão de poucos ingredientes, mais sólido o terreno para expandir o vocabulário e seguir a memorização.

Gosto de pensar que, antes que um artista crie uma paleta de cores autêntica e complexa, ele precisa primeiro se familiarizar com as cores primárias, que são apenas três. Certo?

Materializar

É importante realizar pausas entre a avaliação dos ingredientes. Mas o fundamental é materializar esses pensamentos, anotando percepções, para não sobrecarregar a memória ou não perder algum insight em um possível mar de estímulos.

Paralela Escola Olfativa

Repetir

A repetição faz o mestre.  Do treinamento, surgem novas facetas, associações, diferenciações. Repetir é o que estimula o cérebro a alcançar novos lugares, revisando as nuances, as sensações familiares e as novas. É interessante também, aleatoriamente, se indagar: como é mesmo o cheiro do cravo? 

Esses testes ao acaso estimulam guardar essas informações na memória e somente com a consistência da prática desse ritual, os cheiros e sensações se integram ao vocabulário.

Dica de Expert

Eu recomendo aos meus alunos, e para qualquer entusiasta dessa arte, que integre essa prática na rotina. Começar a prática pela manhã, com a mente mais tranquila e deixando os ingredientes visíveis, são movimentos simples mas que facilitam a consistência do ritual.

Posso ser suspeita para falar, mas para além da técnica profissional, avaliar cheiros é algo agradável que deve ser feito com entusiasmo.

E se você tem esse entusiasmo, pelas descobertas extraordinárias trazidas por elementos aparentemente ordinários, entre em contato comigo. Será um prazer te apresentar essa Metodologia, um dos tantos recursos apresentados nos cursos da Paralela Escola Olfativa e em especial no Curso de Formação 🙂

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