É hora de ousar: Reflexões sobre o mercado brasileiro
12 de fevereiro de 2020

Entrevista Exclusiva: Jean-Claude Ellena para Cinquième Sens

Jean-Claude Ellena, um dos perfumistas mais reconhecidos na perfumaria mundial, participou recentemente de uma conferência no espaço de coworking da Cinquième Sens – escola francesa com sede em Paris, que chancela exclusivamente a Paralela Escola Olfativa no Brasil.

Jean-Claude (JC)  foi criador exclusivo da Hermès por mais de 10 anos e “o nariz” por trás de fragrâncias emblemáticas como First (Floral-aldeídico-verde, Van Cleef & Arpels 1976), Eau Parfumée Au Thé Verte (Cítrico-aromático, Bulgari, 1992) e o próprio Un Jardin Sur Le Nil (Cítrico-amadeirado-frutal-verde, Hermès, 2005).

É também uma  referência além do horizonte olfativo, JC é autor de livros importantes do setor, como “O Diário de Um Perfumista” (2011) e o recente “L’Écrivain d’Odeurs” (2019, da NEZ e em estoque na Paralela), o perfumista é hoje diretor de criação da Maison Le Couvent Parfums.

Além da conferência, Jean-Claude se encontrou com Claire Lonvaud (CL), responsável pela Cinquième Sens de Grasse para um momento de perguntas & respostas. A seguir, dividimos o resultado com vocês.

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CLAIRE LONVAUD: O perfumista é um artista ou um artesão? 

JEAN-CLAUDE ELLENA: O perfumista pode ser considerado artista e artesão. Um artesão tem know-how. Um artista inventa, cria. Hoje em dia, somente alguns são considerados artistas uma vez que os perfumistas não têm essa liberdade de criação. A criação de fragrâncias não tem abordagem científica, pois não há um método para criá-las. Enquanto a formação de um perfumista leva muitos anos, é preciso 20 anos de experiência para dominar a técnica e a criatividade e se tornar um perfumista.

Em 1955, o acetato de benzila foi descoberto e utilizado para reproduzir a fragrância de um jasmim. No entanto, somente anos depois, em 1995, a cromatografia seria capaz de identificar que essa molécula está entre os componentes de um perfume. Os perfumistas mostraram intuição em 1955 para refazer um jasmim. Mas também é possível reproduzir um jasmim sem acetato de benzila. Aqui, estamos falando de criatividade.

 

CL: É possível um perfumista independente sobreviver hoje?

JC: Antes de se tornar independente, é necessário construir uma reputação na indústria trabalhando em uma grande casa de fragrâncias. Isso permitirá, também, que você aprenda o trabalho de perfumista e melhore com a mentoria de outros profissionais experientes.

 

CL: Qual é a diferença entre trabalhar em uma casa de fragrâncias, na Hermès e como perfumista independente?

JC: Em uma casa de fragrâncias, o perfumista deve trabalhar em um briefing desenvolvido pela equipe de marketing. Somos apoiados por avaliadores e uma equipe técnica. Na Hermès, criamos uma fragrância antes de pensar nos aspectos mercadológicos. Não são feitas pesquisas com consumidores. Por isso é uma grande responsabilidade criar uma nova fragrância sem pesquisa, já que os custos de desenvolvimento são altos. O desafio é ser criativo e desenvolver um produto rentável. Como perfumista independente, é possível decidir com quais marcas trabalhar e em qual direção queremos seguir na criação de uma fragrância.

 

CL: Entre suas criações, quais perfumes levaram mais tempo para serem criados?

JC: Quando criamos um perfume, há dois passos a serem seguidos. O primeiro é ter uma ideia clara na sua cabeça do que você quer fazer. Normalmente leva de 9 a 10 meses. Concluída esta etapa, o segundo passo é traduzi-lo olfativamente. Esta segunda etapa pode levar 3 dias (Un Jardin en Méditerranée, Hermès) ou 10 anos (Cuir d’Ange, amadeirado, couro-especiado-floral, Hermessence, 2014, Hermès). Para Cuir d’Ange, eu tive uma ideia, mas não me sentia satisfeito. Então, eu continuei até ficar satisfeito com o resultado.

 

CL: Você já teve um intervalo em sua carreira?

JC: Quando você cria, você tem tempo para pensar, sentir, dizer sim ou não, esperar um final de semana. O tempo permite se distanciar e dizer se aquele ensaio é adequado ou não. Na    indústria, temos apenas 2 semanas ou 2 dias, então, no geral, a ideia já foi pensada há muito tempo. Não há processo de criação.

 

CL: Você acha que devemos nos limitar a um número de ingredientes na criação de uma fragrância?

JC: O mais importante é não usar matérias-primas desnecessárias. Quando comecei, usava-se até 160 ingredientes em uma única fórmula. Era uma bagunça. Hoje, minhas composições contêm apenas 15-20 ingredientes. Quando você começa a formular, colocar muitos  ingredientes em uma fórmula é reconfortante. Por exemplo, First, de Van Cleef e Arpels contém 160 matérias-primas. Terre d’Hermès (2006, Amadeirado-especiado-cítrico) criado anos depois, contém apenas 60. Uma coleção de 200 matérias-primas é suficiente para fazer uma fragrância. Há muitos almíscares. Quando você sente cada um isoladamente, eles possuem identidades olfativas diferentes. Mas quando você sente o cheiro de um perfume, você não vai poder perceber qual dos almíscares foi usado. É por isso que é preciso fazer escolhas. Quando você cria uma fragrância, a estrutura tem que ser resumida em 5 ou 7 matérias-primas. O resto é a decoração.

 

CL: Quando você sabe que seu perfume está pronto?

JC: Eu sei de acordo com o que eu sinto e se eu estou orgulhoso do que eu sinto. Não preciso de um avaliador para me dizer se é bom ou não. A posição de avaliador surgiu na década de 1970 porque a demanda por perfumes estava aumentando. A diretriz de um perfume baseia-se, atualmente, na análise de mercado e não há mais criatividade.  Quando eu crio, o briefing não importa. Para criar Un Jardin En Méditerranée (Amadeirado-frutal-verde, 2003), eu primeiro desconstrui o nome do perfume. A palavra “jardin” (jardim, em francês) não me inspirou no início. Então, um ano antes da criação, eu lembrei de um evento onde havia taças de champanhe em uma bandeja. Para a palavra “méditerranée” (de Mar Mediterrâneo) eu tinha uma ideia em mente, folhas de figueira com vista para o mar. A dificuldade estava em fazer uma escolha. Na Hermès, eu não tinha um briefing ou um estudo de marcado para poder trabalhar.

 

CL: Existe um método para formular?

JC: Alberto Morillas, por exemplo, mistura diferentes fórmulas. Este não é o método dele. Jacques Cavallier trabalha com Morillas para fazer uma fórmula simples. Portanto, não há regras para formular.

 

CL: Geralmente, qual é a proporção entre matérias-primas naturais e sintéticas em uma fragrância?

Diorissimo (de Edmond Roudnitska, Dior, 1956) é uma nota de lírio do vale (uma flor natural), composta por sintéticos, principalmente. Os naturais têm um efeito importante em uma fórmula mesmo em uma pequena porcentagem. Por exemplo, em Vent Vert (Floral-verde de Germaine Cellier, Bailman, 1947), há 4% de gálbano na composição, diluído a 10%. Em algumas épocas, os perfumes continham muitos naturais em baixa concentração na fórmula. No Fracas (Floral-floral de Germaine Cellier, Piguet, 1948), há 2% de absoluto de tuberosa harmonizado com aldeído C-14, aldeído C-18 e uma alta dose de antranilato de metila. Hoje, usamos 20% de naturais para uma longa duração. Mas isso também depende do projeto e dos custos envolvidos.

 

CL: Você conhece as futuras tendências olfativas?

JC: É tudo sobre feeling.  Não sei as futuras tendências. Em Rose & Cuir (Floral-couro, de JC para Editions De Parfums Frédéric Malle, 2019) há uma alta dose de IBQ (isobutilquinoleína). Se decidirmos segui-lo, ele torna-se uma nova tendência.

 

CL: Qual é o segredo do sucesso de Terre d’Hermes?

JC: São vendidos 3 milhões de frascos por ano, em comparação com apenas 2000 frascos de Jour    d’Hermès (Floral-cítrico-verde, 2013) por ano. O nome do perfume já havia sido escolhido. Quando comecei a criar, lembrei de Metamorfoses, do poeta italiano Ovídio. (O livro) Inspirou uma combinação de leite e vetiver. Que não evoluiu por ser uma combinação muito elitista. A segunda inspiração veio como uma aquarela de uma paisagem na Irlanda. A terra era branca. Caminhou, então, em direção a uma combinação entre vetiver, cedro (50%) e Iso-e-Super. Cedro e Iso-e-Super têm um cheiro chamado vertical, ao contrário do sândalo, que é um cheiro horizontal. Essa verticalidade representa as árvores plantadas pelo homem para mostrar sua presença. Eu decidi não colocar almíscar. Adicionaria um cheiro de pedras. Um cheiro mineral e defumado. Então, eu adicionei uma nuance cítrica com uma nota de grapefruit. Para fazer essa nota de grapefruit (toranja), eu criei um acorde com laranja doce e Rhubofix®. O cheiro é mais poderoso do que o grapefruit sozinho. Depois, são as pessoas que decidem se um perfume será bem sucedido ou não. A primeira ideia que combinava massoia e sândalo se mostrou mais adequada para a coleção Hermessence (hoje disponível sob o nome Santal Massoïa – um amadeirado-gourmand, 2011).

 

CL: Cada fragrância está relacionada a uma memória?

JC: Sim, mas não o tempo todo. Existe a fragrância e a história. A história pode vir depois do perfume já ter sido criado. É usada para envolver o consumidor e levá-lo ao desejo de comprar o produto. Um perfume não é apenas técnica, é emoção.

 

CL: Como a indústria evoluiu desde que você começou este negócio?

JC: Na década de 1960, o perfumista estava em contato direto com o presidente das empresas. O desafio era seduzir e encontrar as palavras certas para descrever um produto. Na década de 1980, a área de marketing surgiu e ocupou um espaço entre o presidente da empresa e o perfumista. Atualmente, a dinâmica de desenvolvimento é guiada por testes com consumidores e pela área de marketing. Marketing e avaliação restringem a criatividade. O perfumista tornou-se um bom técnico. Hoje, há o “nicho real” e o “nicho falso”. O “nicho real” tem baixa rotatividade e produz apenas pequenas quantidades (de 50-100 kg).

 

CL: Você tinha um mentor e o que ele trouxe para você?

JC: O meu mentor foi Edmond Roudnitska. Eu só podia ouvir o que ele tinha a dizer. Mas eu não concordava com ele. Então, ficamos sem nos falar por 3 anos. Escrever livros sobre perfumes me ajuda a ter uma mente clara.

 

CL: Você tem um método para memorizar matérias-primas?

JC: Leva tempo para sentir cada matéria-prima e criar sua imagem mental. Os sintéticos são mais interessantes, mas não têm personalidade forte. Naturais são mais fáceis de serem reconhecidos, com exceção dos absolutos. A segunda coisa a se fazer é memorizar a intensidade, a longa duração ou não, o preço e os adjetivos para descrever o cheiro.

 

CL: Como podemos modernizar um Chypre?

JC: Prefiro dizer “amadeirado” em vez de “chipre”. Para modernizá-lo, podemos fazer o que quisermos. Podemos ter um acorde chipre sem patchouli. Antes da década de 1990, os perfumes eram classificados. Então, nos anos 90, a classificação implodiu, colapsou. É difícil classificar um perfume hoje em dia. Não há apenas um tipo de “chipre”.

 

CL: Como começou a trabalhar com Frédéric Malle?

JC: Nos conhecemos em Roure (hoje, Givaudan). Gostei da ideia dele de colocar o perfumista assinando cada perfume para que finalmente eles fossem reconhecidos pelo seu trabalho. Apenas dois dias depois de deixar a Hermès, Frédéric Malle entrou em contato comigo.

 

CL: Você testa seus perfumes antes de lançá-los?

JC: Eu testo, geralmente, em 3-4 pessoas. Eu crio perfumes pelo cheiro e não para uma pessoa em particular. Os clientes são livres para gostar ou não das criações e eu não posso adivinhar sua preferência com antecedência.

 

CL: Qual país te inspira mais?

JC: Não gosto dos Estados Unidos, acho estranho. Gosto do mundo asiático, especialmente o Japão. Gosto da estética deles.

 

CL: Hoje, na indústria de perfumes, o que é “moderno” para você?

JC: Devemos sempre escolher o caminho da modernidade. Por exemplo, para Rose & Cuir, fiz uma rosa sem rosa, mas usando IBQ (isobutilquinoleína). Essa é uma outra maneira de ver e fazer as coisas. Para Cuir d’Ange, fiz um couro seguindo um caminho diferente que não usava bétula, como em Cuir de Russie (Floral-aldeídico-couro, de Ernest Beaux, Chanel,1924). Para Vanille Galante (Floral-verde-ambarado, Hermès, 2009), eu não usei vanilla, mas absoluto de vanilla. Modernidade significa mudar sua aparência.

 

CL: Como é feito um Acorde Oriental?

JC: O termo “Oriental” é uma visão ocidental. É um acorde âmbar/vanilla inventado por ocidentais. Você é livre para interpretar um “Oriental” como quiser.

 

CL: Você usa perfume?

Eu não uso perfume para permanecer neutro.

 

Mesmo com sua ampla experiência, que começou como estudante de perfumaria no final dos anos 1960, Jean-Claude Ellena – que esse ano completa 73 anos de idade, se mostra cada vez mais apaixonado e pronto para compartilhar sua paixão pela perfumaria. A Paralela pôde acompanhar de perto tamanha vitalidade e amor em suas conferências na Fragranze, feira de perfumaria da Pitti Imagine, que acontece anualmente em Florença, em setembro.

 

Foi um prazer ter você por aqui  para dividir mais um conteúdo exclusivo e rico em insights que mexem com nossas ideias. Parece que a nós da Paralela, Jean-Claude e você temos uma coisa em comum: o desejo de seguir pensando diferente, o respeito e o amor pela Perfumaria.

Até a próxima,

Paralela Escola Olfativa.

Paralela Escola Olfativa
Paralela Escola Olfativa
Uma escola livre que nos inspira não só a pensar ou fazer diferente, mas a sentir. Somos a única no Brasil a oferecer certificado pela Cinquième Sens (escola francesa com 43 anos de atuação na França e presente em mais de 10 países) e a pioneira no Brasil, em que sentir para entender a perfumaria é a principal metodologia. Não ensinamos fórmulas prontas: ensinamos a pensar, a ousar. Nesses 6 anos de atuação, recebemos mais de 1000 alunos na nossa sede, em São Paulo, e os incentivamos a olhar para a perfumaria em todos os ângulos.

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