Mesmo que você não tenha assistido ao premiadíssimo filme “Parasita”, você deve saber como ele afeta seus espectadores. E comigo, não foi diferente. Durante minha sessão no cinema, já sabia que a obra me renderia uma boa análise, e essa análise foi ainda mais motivada quando me deparei com o artigo “Parasite Olfactory Sociology” da última edição da Revista NEZ. Pois bem, esse é o momento de discorrer sobre essas tantas percepções…

O roteiro de Bong Joon-ho retrata duas famílias sul coreanas similares em sua constituição (casais héteros com um casal de filhos), mas que divergem em suas realidades econômicas e, consequentemente, sociais. No ponto mais alto da cidade, fica a mansão arejada dos Parks e no ponto mais baixo, a moradia semi-subterrânea dos Kims. Simbólico, não?

A trama se desenvolve quando o filho da família Kim aceita a oportunidade de trabalhar como professor particular da primogênita dos Parks. Ao concluir o quão rentável a atividade era, os Kims manipulam situações para forçar a demissão dos antigos funcionários, que pouco a pouco são substituídos pela irmã, pai e mãe. A miserável família compartilha não só do segredo do desonesto plano, mas também do vínculo familiar que os une.

A melhor surpresa que “Parasita” oferece é a de usar uma simbologia não convencional – e bastante sutil – como protagonista de sua mensagem crítica: o cheiro. E que fique bem claro que não digo isso somente por meu lugar de fala, ok?

Escolher o cheiro como aliado nas metáforas é ter um grande potencial para mexer com as sensações do espectador – mesmo que nas devidas restrições, claro. Além de determinante para os conflitos ao redor dos segredos, ele é a causa dos diálogos e acontecimentos que nos levam da tensão até a incredulidade.

E não há como me aprofundar nessa análise olfativa sem desenrolar um pouco da história, portanto… Aviso: os próximos parágrafos contêm inevitáveis spoilers!

A cena inicial – e também a final – é a de uma meia pendurada no lustre da claustrofóbica sala dos Kims, já indicando o tom da amálgama olfativa do ambiente: umidade, mofo, espaço restrito, cheiro de comida e, possivelmente, de baratas. A presença dessas é apenas sugerida, quando acontece um mutirão de dedetização pública, em que uma névoa tóxica invade a sala e sufoca a família, que optou por manter a janela aberta e se aproveitar da “dedetização gratuita”, nas palavras do pai. Por essa mesma janela, presenciamos bêbados cambaleantes urinando próximo da sala.

Mas, o cheiro que permeia essa história, não é de origem externa. É da família Kim.

Os Parks seguem intrigados do começo até o fim, sem que consigam descobrir a origem desse odor e até mesmo defini-lo. O pai arrisca descrever como “rabanetes velhos”, “panos de prato sujos sendo fervidos” e até o hálito de “pessoas no metrô” (o que faz a esposa se lembrar que não anda de transporte público há uma eternidade).

Fica nítido que essa repulsa (pra não falar nojo) existe não só pela falta de referências próximas, mas por se tratar de um odor corporal que não é familiar e aqui, podemos levar a palavra ao pé da letra. É justamente essa familiaridade que impede os Kims de reconhecer esse odor, tamanha naturalidade com que o nariz o encara. É a chamada bolha olfativa.

Cientes da existência do cheiro e temerosos, buscam contornar a situação: usar quatro tipos diferentes de sabonetes, detergentes e amaciantes. Então, mais uma verdade vem à tona: essa não se trata de uma questão de higiene, de um determinado detergente ou elemento específico. Se trata da composição do “cheiro da pobreza”. Uma fragrância que adere na pele, que está impregnada da identidade deles.

Essa aura olfativa dos Kims é um indicador dos que vivem em outra classe e são percebidos como indesejáveis e, por mais que sejam habilidosos, agradáveis e apresentem um bom comportamento, esse cheiro nunca passará despercebido, já que não pode ser sobreposto, camuflado. Esse sempre será um “incorrigível” impeditivo para a plena integração das famílias. Um muro invisível.

Além desse forte papel metafórico, é o elemento que conduz o suspense para um nível inigualável.

Como eu costumo dizer, cheiro é presença. Então é de se esperar que, em momentos cruciais de tensão, em que a família “parasita” está escondida dos Parks em “frestas” da casa, mesmo do outro lado da tela, nosso corpo responde prendendo a respiração na vã tentativa de não contribuir para que os Kims não sejam “farejados”.

 

Confesso que meu corpo reagiu da mesma forma quando, inocente e sabiamente, o filho mais novo observa que o motorista, a governanta e a arte terapeuta têm cheiros iguais, mesmo que eles não “se conheçam”. No entanto, a racionalidade dos pais não permite que conectem os pontos trazidos pela sabedoria e sensibilidade de uma criança…

Não entrarei em spoilers muito aprofundados, mas vale dizer que sabedoria e sensibilidade com certeza não poderiam descrever a forma com que o segredo principal (e dos demais que surgem na trajetória) foram revelados. Ainda que o cheiro, a todo tempo, condenava a grande verdade oculta.

Em “Parasita”, o cheiro é juiz. O cheiro é revelação.

Mas, apenas para os narizes mais sensíveis…

14 de abril de 2020

A Bolha Olfativa em Parasita

Mesmo que você não tenha assistido ao premiadíssimo filme “Parasita”, […]